Nossa linguagem corporal é sempre tão estranha quando ficamos juntos. Quando caminhamos friamente lado a lado indo pra casa, a vontade que tenho é de deixá-lo no meio da calçada e ir sozinha pra casa, mas quando eu chego e fico realmente só, a única coisa que quero é ser tua novamente.

Nostalgia

Logo ali, num dia quente de primavera, os casacos serão guardados no armário e a procura nas gavetas para achar aqueles vestidinhos do verão passado chegarão. Ela vai retirá-los, pendurar nos cabides e escolher um para usar, e então vai se deixar levar pela sensação do cabelo batendo nos ombros quase nus, só vestidos de alças.


Você poderia deter o diabo de sopetão.
Eu gostava do fato de estar sozinha. Agora, tenho pensado em você todos os dias.
Farei 
usucapião
do teu
travesseiro.

Constante

A caminho da faculdade passava por uma casa e me chamou atenção a luz vermelha na porta. De repente o vi nu, sem cortinas, tentando tapar a janela com o lençol rosa bebê enquanto ela esperava deitada na cama  usando somente uma mini saia. Nada me espantou. Deixei aquele mundo entrar na minha cabeça. Vi ali emoções altas, embriagadas, apaixonadas e platônicas, confrontadas com melancolia. Nesse tempo fiquei pensando "O que o levara ali? A falta de paciência em outras relações? Era um frouxo? Um coitado? Um cara normal? O que?". Também pensava nela "Porque decidiu trabalhar nesse lugar barato? Achou que o mundo sempre foi assim e que por isso teria que continuar sendo?". Quais os motivos que nos levam aos lugares e nas profissões que ocupamos? O que me leva a viajar quatro horas para te ver e ficar mais algumas sem roupa, poderia ser porque em ti redescobri o tesão incontrolável, uma ânsia irresistível. Embora eu não pense muito e só vá, respeitando o meu coração completo de tesão, nunca sei como reagirás a um novo encontro, nunca sei a porra do teu pensamento. Tu me parece fodido demais. Alguém tão fodido quanto eu. É isso que não me faz jogar a toalha.



 I feel crazy when I see your face
Entrevista para o Mamíferos aqui.
Beijei um amor arrebatador após um jejum de dois anos sem coração. Nesse jejum, tatuei um coração vermelho no peito. O porque de ter feito isso, uma amiga supôs depois de algumas cervejas: "Ela tatuou um coração porque não tem um".

O novo amor  que beijei é um xerox dos modos do anterior. Usa o mesmo perfume, me come como o outro, coloca o mesmo DVD musical para assistirmos na TV, fala as mesmas coisas, usa o mesmo tom, é tão cavalheiro quanto, mesmo signo no zodíaco, intenso e bônus para: ambos gostamos de conhecimento musical. Eu soube que eras igual ao outro amor quando dormi na tua casa. Foi o dia que nos conhecemos pessoalmente. Acordei na tua cama e fiquei pensando:

"Pois é, Filomena, ele é igual ao outro e tu sabes que para o bem da tua saúde mental, essa foi a primeira e a única vez que tu ficas com esse homem".

Já deves adivinhar o que aconteceu. Não tem como ser inteligente emocionalmente quando o tesão e o encantamento te cutucam lá no fundo. Ainda mais quando num segundo encontro ele fala que quer dormir contigo de novo. Eu saberia separar as coisas se fosse qualquer outro cara. Acordar com teu cheiro (bom) no meu cabelo piora as coisas. É um dia inteiro de trabalho com uma fantasia no peito.

Venho respirando fundo vinte vezes e praticando yoga, mas a vontade de tirar a roupa pra ti é maior. Eu poderia apenas dizer: "Me ama do jeito que puder", mas seria muito evoluído da minha parte. Não gostaria que a letra do Vinícius se tornasse realidade, "Mais um adeus/ Uma separação/ Outra vez, solidão/ Outra vez, sofrimento".




O tempo é inspirador e generoso pra quem sabe lidar com a espera. Existem coisas, lugares e situações que simplesmente não te servem e embora algumas vezes tu vá com elas, o que queres de verdade ainda está na alma reiterando a inicial vontade.

Passou o tempo.
Nasceram os meus cabelos brancos,
tu se endireitou,
eu fiquei estável,
duplicaram os teus brancos, e
o nosso toque continua
provocando
a dimensão do afeto e
sexual cumplicidade.



Separados
somos só
normais.
Teu apartamento continua na memória. Os tapetes, teu conjunto de chaves ao lado da carteira, uma caixa de bombons pra quando precisasse adoçar a vida. O barulho dos vizinhos abrindo a porta nos corredores me fazendo gemer mais baixinho enquanto tu falavas pra não me importar com eles. As cobertas nos domingos. As ligações da tua mãe. O aroma do café que fazias. A piscina do vizinho vista da janela e a melancolia. O calor sufocante dos primeiros anos e aquele ventilador velho e barulhento - que o vizinho de baixo reclamava  -  era a única coisa pra refrescar, mas somente no psicológico. No inverno rigoroso um aquecedor nada potente adicionado de bebida, cobertas, tu morrendo de frio e um fogo saindo de mim. 


Como podes capturar algo 
que foi destinado 
a te capturar?
diz
que tudo que tu precisas
é de uma hora hoje,
outra amanhã,
e assim por diante.

vou ficar tranquila por você,
e estarei na porta
quando você sair.


Fiquei animada com tua visita, mesmo que às vezes me sinta uma péssima anfitriã. Tu chegou, te dei um beijo e depois conheceu minha felina. Primeiro a chamou de Jair, depois Roberto. Pode parecer clichê, mas isso me remeteu à infância e aos nomes que dávamos aos bichos. Tive que rir da nossa mesma linha de humor. Tu foi para o banho e deixou a porta aberta. A felina aproveitou a brecha para cheirar tuas roupas. "O Roberto tá cheirando minhas roupas", tu disse. Eu ri e esperei no sofá, apesar de ter sido convidada a me juntar a ti. Quando saiu do banho - cheiroso - tirei a toalha que envolvia teu corpo e, bem, tentamos colocar em prática o que eu havia comentado alguns dias atrás sobre profundos e significativos entrosamentos. Horas mais tarde, depois de dormirmos juntos, tu foi embora. Te dei um beijo e sugeri um "volte sempre". O eco do som alto dos vizinhos foi a trilha sonora (não pedida) que me fez te ver indo com instrumentos musicais preenchendo as duas mãos. Dia desses quero te ver voltar com as mãos vazias e pegar meu corpo para um encontro de pessoas que se curtem. Eu, tu, a Felina/o Jair/o Roberto.






Tenho o desejo de profundos e significativos entrosamentos. No dia anterior desejei respirando fundo que te tivesse. De madrugada em meio a fogos barulhentos vi cânions nas taças sobre a pia. E quando decidi por fim ir dormir, revi teu belo tipo.

Titubeei para atravessar teus olhos. Um receio de que nossos livros se cruzem de uma maneira que demore para voltar. Porque teus olhos têm um ataque de alta qualidade. E enquanto pensam que só me dás mantimentos de toque ou visuais, tu chegas de surpresa com os sonoros.
A condição revoltante da segunda-feira se desdobra num verão riso de canto de boca.

Ontem ele foi dormir apaixonado e hoje obcecou as pessoas. Comeu um pouco de fruta: "O tesão começa na cabeça", disse. Concordei. Espero que todos nós façamos. Sexo. Nós que andamos a pé (e vocês que não) e descobrimos a fúria do sol, das relações, dos sentimentos, das cervejas novas, do morango, do suco de uva, do gosto de fruta. Alheio.


Esperar felinamente 

e depois 
ronronar um pouco.
Minhas mãos são naturalmente instáveis. Elas tremem quando eu me concentro em pegar ou fazer algo que não estou acostumada. Todo novo amor experimenta meus tremores, é inevitável. E mesmo acostumada eu continuo tremendo.

 

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