Tu começaste a falar, e eu acompanhei encantada, sendo boa ouvinte. Saímos do café e fomos andando pelas calçadas. Entramos em um antiquário enorme. Tu me propôs um jogo de citações, aí fiquei sem jeito porque essas coisas nem sempre lembro, nem culta sou. Mas achei interesante e fiquei tentando lembrar de algo naturalmente, um trecho de livro talvez. Até que lá numa salinha, tu começaste, dizendo alto:
- Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes" Newton.
Me vi sem saída, aí optei por falar alto um trecho de Pedro Juan, o único que me lembrava, mas aos trancos e barrancos:
"Sempre vivi como se fosse interminável. Quero dizer que destruo tudo continuamente (...) Talvez seja o hábito de não prever. Pouco a pouco foi aumentando o peso sobre minhas costas. Escombros demais. Dessa forma, adquiri o costume de me aproveitar de tudo e de todos. Um maldito senso pragmático da vida. Passo a vida fazendo contas. Calculando quanto entrego e quanto me dão em troca."
Tu continuou:
"Aí apareceu uma bela garota em minha vida, que focalizou em mim seus olhos e me passou uma mensagem telepática de amor. E eu acreditei.Tinha de acreditar. Quando a gente se sente tão sozinho capta muito rapidamente uma mensagem assim e a leva com cuidado até o coração e a deposita ali e se entusiasma e acredita que já está tudo resolvido."
E eu:
- Mas não está.
- É... mas tudo bem, disse.
Veio e me apertou forte num abraço. Me levou deliciosamente, com o braço acalentando minhas costas. Fomos, quadras e quadras, direto pra tua casa. Eu não falei uma palavra. Como sempre, deixei me levar, não tinha compromisso mais instigante.
Chego. Vejo um quarto na minha frente e sou convidada a entrar. Olho ao redor e vejo livros, sento na cama. Música toca. Uma hora depois já havíamos casado nossos corpos, eu nem ambiciosa fiquei. Nos comunicamos bem. Senti instinto e paz, gemidos antes, nenhuma palavra depois. Sonhei com os pés na cama. Belo, me fizeste bem.
